“Esse Rio é minha rua”
Primeiro Setor: A água brota da pajelança dos Caruanas na Ilha de Marajó
Conta-se que em um tempo distante, quando o mundo era todo coberto por água, surgiu um
Girador, um grande pote de barro, onde hoje se localiza a Ilha de Marajó, no norte do Brasil e
construiu sete cidades sobre as águas para servir de morada ao povo místico de Auí. Certo
dia, Auí descumpriu a regra imposto pelo Girador, olhando para o fundo do redemoinho se
formando para alcançar o fundo das águas. O gesto fez com que as sete cidades submergisse,
transformando-as em encantadas, assim como Auí e seu povo, que são transformados em
Caruanas, subdivididos em doze energias auxiliadoras do mundo dos viventes, habitadas no
fundo das águas do Mundo Encantado dos Caruanas.
Segundo Setor: Lendas das Águas do Amazonas.
Emerge das águas do Amazonas o imaginário popular. Surgem lendas, mistérios e muitas
histórias.
Dizem que em um tempo distante tudo era seco. Conta-se que há muito tempo, dois jovens de
uma comunidade indígena sonhavam em se casar. Ela encantava a todos com suas vestes
prateadas. Ele emanava brilho com seu dourado irradiante. Ela, a Lua. Ele, o Sol. O encontro
entre a senhora da noite e o dono do dia era proibido. Tal união faria o mundo acabar,
acreditavam. O mundo derreteria de tanto calor. A Lua triste com a reprovação do amor
chorou durante um dia e uma noite até que suas lágrimas chegaram ao mar, que não aceitou
suas lágrimas. Por isso, o choro da Lua começou a criar novos caminhos, formando assim um
enorme rio. A partir de então, o rio Amazonas surge, abrigando seus povos, suas culturas e
histórias e as mais diversas lendas , mistérios e resistências, que são passados por muitas
gerações através de ensinamentos.
Em todo anoitecer uma linda flor de cor esbranquiçada desabrocha ao ser iluminada por cima
de uma grande folha que flutua à beira do igarapé, tornando-se na mais bela estrela das águas.
Encantado pelo brilho do luar, surge das profundezas do Amazonas, bailando sob as águas o
boto-cor-de-rosa, que transforma-se em homem, trajando-se de branco para frequentar os
festejos na beira do rio, seduzindo as jovens da região. Sedução que também entoa pelo doce
canto de Yara, afogando de paixão o coração dos caboclos pescadores que vagueiam pelo
Amazonas em busca de sustento. Mas o rio que traz sustento também carrega seus mistérios e
perigos. Também contam por aí que o Amazonas é morada de Honorato e Caninana, dois
seres transfigurados através da imagem de uma serpente encantada que habita o fundo das
águas. É por essas histórias que pescador nenhum tem coragem de navegar pelos rios da
Amazônia sem colocar uma carranca na frente das embarcações para servirem de proteção
contra todo mau agouro e contra todo ser enfeitiçado que tem morada nessas águas.
Terceiro Setor: A fé que emerge das águas - Procissões Fluviais
Rios que levam mitos, lendas e mistérios mas também fazem emergir a fé através das
romarias e procissões fluviais que colorem os rios do norte do Brasil com barquinhos
ornamentados com fitas, flores, rendas e velas para saudar e louvar os santos padroeiros.
Devotos ribeirinhos que entrelaçam estandartes, verdadeiros ex-votos que dão alma à fé e a
religiosidade dos pagadores de promessas.
Todo mês de Junho fiés seguem em romaria fluvial pelo Rio Negro, levando a imagem de
São Pedro, padroreiro dos pescadores, pedindo para não faltar fartura na pesca e conseguir o
alimento de cada dia na mesa. Quando chega o mês de Julho é vez dos ribeirinhos da Ilha de
Parintins festejarem Nossa Senhora do Carmo, naquele que é considerado o maior evento
religioso do Baixo Amazonas. Padroeira da ilha Tupinambarana, Nossa Senhora do Carmo
recebe as homenagens de seus devotos, que percorrem o Amazonas com seus barcos
festejando a santa.
Quando chega o mês de Outubro, em Belém do Pará é hora de celebrar o Círio de Nazaré,
uma das maiores festas religiosas do mundo. Gente de todo canto se reúne para celebrar
Nossa Senhora de Nazaré. Na véspera do Círio, se realiza a procissão fluvial, que percorre as
águas da baía de Guajará, com muitas embarcações rumo ao cais do porto, em Belém do
Pará. Embarcações de todos os tipo e tamanhos se enfeitam para acompanhar a imagem da
Virgem de Nazaré, que segue em procissão fluvial para festejo dos devotos, em direção a
Basílica de Nossa Senhora de Nazaré, morada da santa, onde todos irão receber a imagem
com muita oração e festa, unidos pelo sentimento de fé e esperança. Morada que guarda em
seus mistérios, no fundo das águas a grande cobra de nome Boiúna.
Quarto Setor: A Chegada do Invasor e a ameaça a biodiversidade das águas
O rio que faz emergir os mais diversos seres e lendas também trouxe a ambição e a ganância
de um povo que só pensou na exploração. Navegavam por essa águas, durante muito tempo,
corsários, aventureiros, exploradores e piratas buscando encontrar riquezas e invadir essas
regiões. Assim, os rios foram sofrendo influência da ação do homem, que deixavam suas
marcas de exploração por onde passavam. A Biodiversidade das águas começou a ficar
ameaçada e Pirarucus, Curimbatás e Matrinxãs, que serviam de sustento e alimento para
muitas famílias ribeirinhas deixaram de existir.
Quinto Setor: Reexistência Ribeirinha e Indígena - A luta pela preservação dos rios da
Amazônia
O tempo passou e os exploradores de outrora se reverberaram no século atual. Trajados com
novas vestimentas, utensílios e armas, garimpeiros, empresários e falsos messias irão
proclamar a destruição dos rios da Amazônia. Agora, além da biodiversidade, todos aqueles
que buscam sua preservação também são atacados. Das águas fazem emergir hidrelétricas,
verdadeiros monstros marinhos que exploram, sugam e colocam fim à biodiversidade local.
Já na terra, em solo batido avermelhado o garimpo ilegal que se explora contamina e faz
nascer um rio de sangue.
Contudo, é tempo também de reexistência e de luta. É tempo de preservação. É preciso
endossar a voz das comunidades indígenas por demarcação, pela preservação dos nossos rios
e de toda a sua biodiversidade. É preciso lutar em comunhão com lavadeiras, caboclos e
ribeirinhos para que seus espaços sagrados de morada e sustento não mais lhe faltem. É
preciso escutar a sabedoria dos povos milenares em prol da preservação. É preciso Reexistir e
dar um basta à exploração pra que as águas sigam seu fluxo de existência.
