| Logo do Enredo. Criado por Fernando Cosntâncio |
Sinopse:
Conta-se que, em tempos remotos, existiu um lugar onde o canto das aves, o bailar das plumas e a exuberância da flora se entrelaçavam em perfeita harmonia com um povo que pronunciava o Tupi-Guarani, cujos sons ecoavam como melodias sagradas. Nesse paraíso, chamado Yvy marãe'ỹ, a Terra Sem Males, não existiam vestígios de guerra, fome ou doença. Sob a proteção das matriarcas da floresta, o Paraíso Idílico era morada de Yebá Bëló, a Deusa Criadora, Ceuci, a guardiã da lavoura, e Jaci, a deusa da floresta e da beleza serena das noites de lua cheia.
Mas, de repente, a terra se fez visível.
A esquadra de Cabral, que desbravaria as costas do Brasil, avistou uma terra virgem, onde o paraíso se desvelava em sua plenitude. A visão de Pero Vaz de Caminha revela um idílio tropical: riquezas naturais, terras férteis onde tudo o que se planta floresce. Povos dóceis viviam em equilíbrio perfeito com a fauna e a flora - papagaios coloridos, árvores imponentes e frutas de todas as formas e sabores. Nossos ancestrais, semi-nus, adornados com penas e com os corpos adornados por desenhos, se banhavam nas praias e se alimentavam das dádivas da terra. Uma visão que se aproximava da mitologia Tupi-Guarani, onde o homem e a natureza viviam em comunhão.
Mas a história, em breve, tomaria novos rumos.
Ao tocar as praias de Porto Seguro, os filhos do velho mundo trouxeram consigo tanto seus martírios quanto seus paraísos utópicos. Com suas vestes pesadas e armas em punho, os navegadores desembarcaram, brandindo facas, espadas, espelhos e louças, transformando o primeiro encontro com os Donos da Terra em um troca desigual, um escambo de desolação. Em um sopro de dominação, portugueses e jesuítas impuseram seus dogmas e suas visões de paraísos e infernos. O território foi marcado com suas cruzes, bandeiras e armas. O toque de suas mãos, embora recém-chegadas, trouxe consigo a destruição e o sofrimento para aqueles que haviam sido os primeiros, os Donos da Terra. Com seus tentáculos da destruição, a chegada das coroas e das bandeiras trouxe o Inferno Colonial para os povos indígenas, devorados pela doença e pela exploração.
Em 1808, uma fuga determinaria o futuro do Brasil.
No dia 22 de janeiro, a Família Real Portuguesa aportava em Salvador, recebida com salvas de canhões, tiros de fuzil e o eco dos sinos das igrejas. A cidade, enfeitada, celebrava a chegada dos monarcas, após longos 54 dias de espera. Em breve, o Rio de Janeiro se tornaria a capital do Reino de Portugal, e o Paço Imperial, com vistas para o mar, seria o novo lar de um império de falsos esplendores. O luxo e a pompa que refletiam a riqueza do Brasil Imperial contrastavam com a dura realidade das pessoas subjugadas pela escravidão. A terra, sangrada pelo corte do Pau-Brasil, o amargo sabor do açúcar nos engenhos e o suor nas plantações de café e seringais, se tornava um reflexo de um paraíso ilusório. A abolição prometida parecia uma redenção distante, uma mentira escrita nas páginas da história, sem garantir verdadeira liberdade ou justiça.
O sonho de liberdade.
A chama que acendeu os ideais da República Brasileira, liderada pelo Marechal Deodoro da Fonseca em 1889 ergueu-se na Praça da Aclamação, rompendo com a monarquia e, com o gesto audaz, dava forma a um novo país, onde a esperança, a liberdade e o desejo de um futuro melhor se entrelaçavam na fundação da República. Mas, como todo sonho, a utopia logo se dissipou. A política, então, se afundava nas disputas entre as oligarquias de São Paulo e Minas Gerais, o famoso "café com leite". O poder do país se concentrava nas mãos das elites e grandes proprietários de terras, enquanto os desclassificados eram novamente jogados para as sombras da sociedade. Mais tarde, com a ascensão de Getúlio Vargas, a República ainda se via marcada pela ambiguidade. Seu Departamento de Imprensa e Propaganda construiu a imagem do "pai dos pobres", enaltecendo sua figura. Porém, apesar da consolidação de alguns direitos, o controle e a repressão se faziam presentes, e a vigilância sobre a população era a moeda de troca para a manutenção do poder. Anos mais tarde, foi com os militares, que tomaram o poder em 1964 através de um golpe, que a repressão encontrou seu ápice. Sob o manto de um regime que mergulhou o Brasil em um cenário sombrio, a população se viu sujeita a um martírio de vigilância, censura e uma constante sensação de medo. O sonho de liberdade parecia cada vez mais distante, como se, ao invés de construir, o país estivesse, na verdade, em ruínas. Foi no desabrochar das flores do Tropicalismo que se abriu um novo capítulo de esperança, um frescor que respirava a promessa de dias melhores. Como sementes lançadas ao vento, o movimento trouxe consigo uma força transformadora, que ecoou não apenas na música, mas também na cultura, na arte e na política. O Tropicalismo, com sua ousadia e criatividade, quebrou barreiras e abriu novos caminhos, pavimentando a estrada para a reconstrução do país e a reabertura de uma política que até então estava sufocada pelo autoritarismo.
Os caminhos que buscavam consolidar o sonho de um Paraíso Desejado, onde os direitos da população fossem verdadeiramente garantidos, foram traçados pela Constituinte de 1988. Porém, essa jornada ainda parece distante da realidade, uma realidade que, embora registrada em mais de 500 páginas de papel, se desvia do ideal contido nesse documento. Apesar da Constituição assegurar, entre outros, os direitos à educação, à saúde, à alimentação, à moradia, à cultura e ao lazer, além dos direitos dos povos indígenas, o que vemos no cotidiano é um cenário de constante desarticulação desses direitos. Os fatos que se desenham diante de nossos olhos estão no preço exorbitante da comida, que torna o sustento um desafio diário para muitos; na saúde e na educação, que são constantemente atacadas e transformadas em mercadorias, ao invés de direitos essenciais; na rua, que se torna o único abrigo para os desclassificados, aqueles que a sociedade insiste em ignorar; e na cultura, cada vez mais engolida pelo monstro da indústria, perdendo sua essência e profundidade diante da produção em massa. Esses cenários refletem uma realidade em que o que deveria ser acessível, humano e coletivo se torna um luxo ou um produto, enquanto o que é legítimo e vital é marginalizado e silenciado.
Talvez, para finalmente alcançar esse paraíso, seja necessário retornar à filosofia e à ancestralidade indígena. Precisamos resgatar a sabedoria milenar desses povos e nos abrir aos seus ensinamentos, pois talvez seja através dessa reconexão que possamos, enfim, caminhar rumo a um Brasil verdadeiramente igualitário e livre. A esperança que permanece acesa é a de um Brasil Cocar, onde o símbolo de união, resistência e sabedoria ancestral seja a bandeira de um futuro em que todos, sem exceção, possam viver com dignidade e liberdade.
Enredista: Fernando Constâncio
Carnavalesco: Charlton Júnior
Nenhum comentário:
Postar um comentário